No ano de 1949, ainda sob os grandes efeitos da segunda mundial, foi publicada a 1ª edição da obra de George Orwell, 1984. Se trata de uma grande obra de literatura distópica que se tornou muito influente no século XX como uma forma de reflexão sobre os regimes totalitários.
A sociedade retratada pelo livro é uma sociedade onde as pessoas são controladas de várias formas possíveis (seja pelo idioma, pelo monitoramento, pelas expressões, pelos fatos, pelas próprias pessoas). As tais ‘teletelas’ instaladas nos domicílios, nos ambientes de trabalho, nas ruas captam todos os movimentos, funcionam como um tipo de vigia sobre as pessoas, mas também como influenciador (uma vez que exibia a programação que as pessoas deveriam assistir). Nada fica fora aos olhos do ‘grande irmão’. Contrariar o partido é uma sentença de desaparecimento, ou seja, a pessoa simplesmente desaparece (não só morre – todos os vestígios de que ela existiu são apagados).
Apesar de os 3 continentes existentes no livro serem autossuficientes, o estado de guerra é de suma importância para o controle funcional da população. O sentido de guerra, da união, da Pátria não só enobrece a pessoa, como traz um sentido, um porquê, um para quê, tal que une as pessoas em um só propósito.
Os grandes, que são a ‘nata’, fazem parte do governo e controlam tudo. Aqueles que trabalham para o governo são os mais controlados – não podem, de modo algum, contrariá-lo. Curiosamente, o protagonista do livro (Winston), trabalha no Ministério da Verdade cuja responsabilidade é alterar os fatos em favor do governo (as fake news). Além disso, há os ‘proletas’, que ficam mais livres, uma vez que são ignorantes e muito fáceis de serem manipulados – eles simplesmente aceitam, vivem extremamente alienados, apenas obedecem.
Muito intrigante o fato de que o líder, aquele que simboliza o governo, é o ‘grande irmão’. Não se sabe ao certo se existe ou não a pessoa do grande irmão, mas a figura é fundamental para a sobrevivência do governo em seu status quo. A pessoa não é tão importante em si, mas sim, o que representa a figura do grande irmão, do inglês, Big Brother.
Na realidade retratada pelo livro, valores das liberdades individuais: ir e vir, pensamento e expressão, não existem. A vigilância é total. O paralelo entre a obra de George Orwell e o pensamento de Michel Foucault é inegável. A obra ‘Vigiar e Punir’ mostra o modelo de punição até o século XVIII baseado num ato físico a servir de exemplo aos demais; a partir do século XVIII as punições são disciplinadoras. São formas domesticadoras, que não agridem o aspecto físico, mas de modos racionais. A prisão panapnótica é um exemplo disso, onde os presos são vigiados a todo momento, mas não são capazes de ver aqueles que os vigiam – ou seja, aquele que vê, tem o controle sobre aquele que não vê. Infelizmente, Foucault mostra que esse modelo de vigilância pan-óptico não se restringe ao âmbito prisional, mas vai além para a vida de cada indivíduo –
todos estão sendo vigiados a todo momento, todos estão sendo controlados, de modo bem sutil, de forma a não perceberem o controle exercido sobre si, por meio de dispositivos de disciplina.

Essa noção narrada na literatura de Orwell ou refletida sobre Foucault nos trazem uma enorme angústia. Achamos que temos liberdade asseguradas, que somos senhores de nós mesmos, quando, ao invés disso, mais parece que somos controlados e vigiados. Somos monitorados por meio de documentos, de imposto de renda, de prontuários, de horário fixados para comparecimento, controle de horário de trabalho, resultados de testes realizados para provas e/ou concursos, etc. Há tantos modos de sermos vigiados. Ao termos a nossa liberdade afetada imediatamente nos sentidos roubados, lesados, e assim por diante. Se por um lado, a vigilância e controle nos afetam de forma negativa, quantos mais somos enxergados pela sociedade, parece que mais importância agregamos ao nosso ego. Não aprovamos se somos vigiados, mas aprovamos cada curtida em nosso perfil da rede social. Fenômeno que explicita a sociedade do espetáculo na qual vivemos, para citar Guy Debord.
As pessoas vivem se expondo, expondo a sua intimidade, o seu modo de viver, de pensar, de falar, etc. E quanto mais audiência tiver, melhor será. Mas se vigiado, sem a anuência da pessoa, evoca ao prejuízo da liberdade do indivíduo. Quer dizer, gostamos de nos expor, mas não gostamos de ser expostos. Outro fato é que as pessoas que acabam sendo ‘as mais curtidas’ se tornam influenciadores de outras pessoas – essas querem ser como aquelas. O espetáculo da vida de um, vista pelos milhares de grandes irmãos, vira referência para os observadores – ao mesmo tempo, o influencer mostra aquilo que os observadores querem ver, a fim de manter a audiência.
Voltamos à ideia de Foucault, de que aquele que vê possui o poder. Sejam nas redes sociais, ou na vida cotidiana, vivemos nesse embaralhamento do ‘ser visto’ e ‘ver’. Somos observadores e somos vigiados. A primeira nos agrada, a segunda nos apavora.
Será assim?
