A partir do século XVI, a humanidade presenciou uma série de mudanças em vários campos do saber. Mudanças significativas na física, na química, na biologia, na literatura, na arte, etc… O fim da cosmologia escolástica cedeu lugar ao nascimento do Iluminismo, o que acarretou na substituição nos paradigmas, do religioso e mítico para o científico. O conhecimento passa a ser norteado não mais pelo dado da fé, mas pelo dado da experiência.
O conhecimento religioso/mítico cede espaço ao conhecimento filosófico, que por sua vez, cede espaço ao conhecimento científico. Toda forma de conhecimento que não fosse pautada pelo métodos epistemológicos deveriam ser refutados, negados e descartados.
Dentro desse contexto, o ser humano não fica eximado de ser visto, como a si mesmo, como parte de um todo – o ser humano que é uma parte integrante da natureza e não senhor dela. Daí, então, passível de ser examinado, explorado e conhecido. O iluminismo passa a colocar o ser humano numa visão concreta entre o orgânico e o psíquico. o enfoque principal, no entanto, consiste numa visão mecanicista do ser humano com seu funcionamento físico-biológico.
Num momento de superação, a visão passiva de uma autoridade religiosa é posta de lado em contraste de uma visão libertária do ser humana enquanto ser da natureza que passa a adotar seu conhecimento como um verdadeiro desbravador da natureza e colocá-la ao seu serviço. O que existe agora, como pauta de veracidade, é o dado científico e não científico. Dessa visão da primazia científica é que surgem as diversas ciências e campos do saber, a revolução científica do século XVI, dando um caráter hegemônico para o conhecimento.
Toda essa mudança no paradigma da história humana trouxe a impressão, ou pelo menos a promessa, de que a ciência seria a solução para todos os problemas dessa mesma humanidade. Houve um crédito exagerado. Com isso, as suposições de outrora foram descartadas. A felicidade agora está mais palpável que antes.
De uma forma isenta, ou sem qualquer tomada de partido, vale lembrar o fato de que antes de toda revolução científica o que se havia era o dado da fé, ou seja, as pessoas tinham suas vidas pautadas por uma promessa da vida eterna e que se conquistaria ainda cá. O sentimento de pertencimento que se instalava nas pessoas era o que se havia de mais precioso. As pessoas se sentiam pertencidas a um grupo, a uma entidade, a uma instituição.
Dando um salto no tempo, o sociológo Zygmunt Bauman traz o conceito de Modernidade Líquida. Nessa concepção de modernidade líquida, todos os vínculos são líquidos, ou seja, não há nada sólido, duradouro, que se sustenta e se mantem. Os vínculos líquidos são retratos da sociedade contemporânea, seja em suas relações afetivas, familiares, profissionais, acadêmicas. Os vínculos são rápidos, curtos, ao melhor estilo fast-food. As conexões reais cedem lugar às conexões virtuais. o mundo virtual é um exemplo típico de um vínculo líquido, onde é possível curtir, descurtir, bloquear, convidar, interagir, apenas deslizar o dedo na tela. Além disso, o mundo virtual tem ficado cada vez mais presente na vida das pessoas devido à facilidade de ser quem quiser ser, mostrar o quiser mostrar, fazer o que quiser fazer.
Com isso, há no ar, uma tenebrosa e sombria nuvem de crise identidade e de pertencimento. As pessoas não se reconhecem mais como a si mesmas; as pessoas não conseguem mais se sentirem pertencentes a alguma ordem (seja ela qual for) – o que acarreta uma série de males para sua saúde e bem-estar, seja físico e mental.
Uma crise de identidade faz com que as pessoas vivam inúmeros personagens, inúmeras representações, mas que não se encontram em nenhuma delas – vivem como se não fossem elas mesmas. Uma crise de pertencimento é decorrente da crise de identidade onde o indivíduo, não conseguindo se enxergar como um indivíduo em sua singularidade, se torna míope em enxergar-se dentro de uma coletividade: o pertencimento da espécie humana, do círculo familiar, do vínculo empregatício, de um grêmio estudantil, e assim por diante. Os grupos coletivos se dissolvem porque já não há mais diversidades de identidade que formam o sentido de unidade em uma coletividade.
O sentimento de pertencimento é o que une, é o que forma vínculos, é o que perpassa pela identidade do indivíduo e o possibilita a enxergar além de si, mas como um um ser que faz parte de um todo.
Conferir: http://escola.mpu.mp.br/dicionario/tiki-index.php?page=Pertencimento#:~:text=Pertencimento%2C%20ou%20o%20sentimento%20de,destacar%20caracter%C3%ADsticas%20culturais%20e%20raciais.