Sobre autoengano

Infelizmente, a mentira mais danosa é aquela que contamos para nós mesmos.

Habitualmente, confunde-se bem-estar/ser e bem-ter. O bem-estar/ser (digamos assim) é o ato de estar bem consigo mesmo, nos conduz à uma saúde física e uma maturidade seja psicológica, emocional e espiritual. Já o bem-ter é uma tratativa paliativa que a sociedade oferece como uma forma de taparmos, momentaneamente, nossas feridas existenciais.

Somos que forçados a crer que a felicidade se trata de uma meta a ser alcançada como um um bem externo, quando, na verdade, precisamos atingi-la a partir de dentro.

Pessoas trabalhando naquilo que não gostam e/ou não se identificam, para comprarem aquilo que não precisam, a fim de viverem um determinado status social digno de ser notado.

Aparentemente, esse discurso soa um tanto revolucionário, por dizermos assim. Anarquista, comunista, ou qualquer outro ‘ista’ que se queira denominar. Mas não! Aqui se trata de um modo de vida baseado em um certo consumo desenfreado no qual se ancora a razão ser/existir, na qual se consiste o sentido da vida. Por mais que usemos discursos que tentem, a todo custo, justificar uma atitude assim, aquele discurso de que se quer o melhor para os filhos, que a aposentadoria logo chegará, que dinheiro é para se gastar, ou aquele sonho de vida em ter ‘zilhões de bens’, na verdade é que somos que levados por um onda que nos impulsiona ao ter.

Cá pra nós… O mais importante tem se baseado em um certa quantidade de bens que se possui, e não na qualidade de vínculos que se constroem.

O autoengano se trata da falta de honestidade para consigo mesmo e nos leva a viver uma vida de ilusão e mentiras, uma vida superficial.

Sobre autoimagem

Podemos pensar em autoimagem enquanto o modo como a pessoa se vê, ou seja, como ela se enxerga e se percebe no mundo;

Tem também a autoimagem enquanto ideal dessa pessoa, ou seja, a autoimagem que ela tem de si mesmo é, na verdade, um ideal a ser alcançado, a ser atingido; como ela gostaria de ser talvez; se trata do modo como a pessoa se imagina.

Há a autoimagem social, ou seja, o modo como a pessoa acredita que os outros a enxergam, numa angústia, muitas vezes sacrificante, de sua personalidade em detrimento ao desejo ou expectativas do outro;

Por último, a autoimagem social ideal, onde a pessoa acaba por viver (basicamente) na esteira da opinião e expectativas dos outros; se trata do modo como a pessoa gostaria de ser visto e reconhecido pelos outros.

A autoimagem está intrinsecamente relacionada com a nossa autoestima, também. A percepção que cada um tem de si mesmo vai muito além do que um simples reflexo no espelho, uma imagem em uma rede social, ou um estereótipo a ser seguido.

Sobre mudanças…

Já dizia um filósofo grego, Heráclito, ser impossível uma pessoa banhar-se nas mesmas águas de um rio duas vezes. O que isso quer dizer exatamente? Ao adentrar nas águas, por ser corrente, ela já se foi. Ou seja, não estamos em contato com as mesmas águas.

Nesse sentido, nós, também, podemos afirmar que estamos em constante transformação. Nosso modo de pensar, de agir, de ver as coisas, de interagir, de interpretar, enfim… Tudo tem se transformado. Inclusive, nosso próprio corpo passa por uma constante mudança.

Quem somos hoje é o resultado de uma série de eventos que vieram se acumulando ao longo de nossa história. Quem somos hoje, com certeza, é uma versão diferente daquela do passado… Os espaços mudam, os tempos mudam, as pessoas mudam…

Nossos círculos afetivos também mudam. Nossas amizades, rotinas, etc. Ser o mesmo, o tempo todo, é uma tendência a uma estática suicida. Mas a verdadeira mudança é aquela que parte do nosso interior para o exterior. Mudar a si mesmo, no meio do caos exterior, é o ponto de partida para uma mudança significativa em nossa vida.

Mas mesmo com todas as mudanças, convém priorizar o fato de que sejamos nós mesmos!!! Nas mudanças, transformações e metanoias da vida, há um filo primordial que ainda persiste e insiste: VOCÊ!!!

Terapia familiar sistêmica

Virginia Satir, uma pesquisadora estadunidense, aclamada como uma das mais importantes terapeutas familiar, desenvolveu a teoria dos 5 papéis familiares.

São eles:

1. Acusador: é aquele membro da família que fica apontando os erros, as falhas, os enganos, os problemas;

2. Apaziguador: é o indivíduo que tentar colocar “panos quentes” nas brigas e desentendimentos, sem, entretanto, tentar ou procurar resolver a situação em definitivo;

3. Computador: é a pessoa que se mostra correta e age de forma apropriada, porém demonstrando pouca ou nenhuma emoção, talvez mascarando uma sensação de vulnerabilidade. Costuma se fechar em seu mundo como um intelectual distante;

4. Distraidor: buscam recorrer, com frequência, ao artifício do humor é emoções, como uma forma de fugir de determinada situação e/ou manipulação;

5. Nivelador: é aquele que busca comunicar-se de uma forma sincera, aberta e compreensiva sobre o que está acontecendo e busca, de verdade, uma maneira de melhorar o que quer que esteja causando o problema.

Importante frisar que as pessoas podem, em situações diferentes assumirem papéis diferentes. Portanto, não compete nenhum tipo de classificação. Mas sim, um modo para nos auxiliar em nossas relações familiares.

Um ‘novo’ a ser descoberto

O hábito é a prática constante de algo que empreendemos fazer ou ser.

Existem hábitos considerados bons e hábitos considerados ruins. Em todo o caso, o hábito requer uma disciplina na repetição.

Os hábitos, por mais arraigados que possam estar, podem ser mudados. Todavia requer uma força extra a ser emanada de dentro de nós.

Nisso, há a diferença entre estímulo e motivação. A motivação é o que impele uma pessoa a ir além dela mesma, ir além daquela situação, ir além daquele hábito. O estímulo ajuda, mas sem motivação, acaba por se perder no caminho.

Outro ponto importante é que substituir um hábito por outro, além da motivação, requer coragem e determinação.

O novo assusta, nos tira da zona de conforto e exige uma mudança interior. Podemos mudar os cenários, mas se não houver uma mudança no interior, não adiantará em nada.

Infelizmente, o novo desperta encanto, mas também resistências inúmeras, que por vezes, não estamos dispostos a superá-las.

Agora pense em quantas coisas você poderia ter feito diferente, mas não o fez porque sentiu medo ou  se prendeu a algo que te paralisou?

A descoberta do novo pode trazer benefícios incríveis para a nossa vida! Ocorre que, por vezes, na balança de nossas escolhas, pesa mais a segurança do momento que o risco da novidade. Abrimos mão de muitas coisas em nome da estabilidade e da segurança!

Para o nosso próprio crescimento, precisamos aprender a enfrentar as dificuldades e modificá-las – não evadi-las.

A Utopia

Em 1516 o filósofo inglês Thomas More escreveu uma obra intitulado “A utopia”.

Obviamente o intuito deste texto não é transmitir um resumo da obra, mas sim, uma pequena análise.

O filósofo viveu entre os séculos XV e XVI. Foi um grande defensor da liberdade de pensamento e crítico da sociedade contemporânea. A obra se trata de uma crítica ferrenha à Inglaterra de sua época, e um convite para uma sociedade imaginária que seria considerada a ideal pelo autor – contrapondo os pontos de injustiça e intolerância vivenciadas.

A palavra utopia pode ser traduzida, literalmente, como o ‘não lugar’ – aquele lugar que não existe. No romance o protagonista se lança em uma viagem rumo à utopia.

O que gostaria de explorar neste texto é justamente o fato de que, independente de existir ou não, de haver uma sociedade perfeita, justa, boa, e com todos os atributos que sejam dignos de louvor… Enfim, não se trata, especificamente, de um lugar, mas de um modo de vida. Modo de vida esse que devemos, nós mesmos, construir.

Ir a um lugar que não se está requer uma mudança, ou várias mudanças: mudança de lugar, de costumo, de pensamento, de paradigmas. alcançar o novo requer que se mude o antigo, caso contrário, será apenas mais do mesmo.

UTOPIA OU PATRIOTISMO

Além disso, a viagem até a utopia se trata, também, de uma viagem de esperança, onde espera-se alcançar esse estado de harmonia – daí o nome de utopia ser entendido como um sonho que é inalcançavel. Mas aí nos deparamos com uma das grandes virtudes da vida humana: a esperança, o sonho. Não à toa a esperança foi a única a se manter dentro da caixa de Pandora!

Para alcançar um sonho, muitas das vezes requer que haja mudança de hábitos, de rotina, de visão de mundo. E esse sonho só será alcançado se houver luta e empreendimento para tal.

Ficar estagnado na mesmice não adiantará de nada.

A obra de Thomas More, deixando de lado os aspectos filosóficos / políticos / sociológicos, pode nos proporcionar uma grande lição para a nossa vida… Dar um upgrade em nossa mente e em nossa alma. Vivemos em um mundo cerceado por desespero, desesperança, morte e destruição. Aquele que preserva dentro de si a chama acesa – mesmo que bruxuleante – da esperança, da capacidade de sonhos, criar, se reinventar… Esse consegue alcançar um raio de visão além daquilo que se vê.

Há os que conseguem enxergar com uma visão dilatada da mente e da alma; há os que se limitam à visão da retina dos olhos.

Os nossos heróis

Quando estamos indo a algum lugar que não conhecemos e parecemos estar perdidos é desesperador…

É, de fato, desesperador estar perdido em um lugar desconhecido.

Mas há alguma diferença com a vida? Por maiores que sejam as seguranças que nos apoiam, a vida é sempre um caminhar a frente, em direção a um desconhecido, e que nos perdemos inúmeras vezes.

Não faz parte do script da vida acertar sempre. Os erros, as perdas, os desencontros, tudo isso vem num pacote completo!

É claro que não contamos apenas com desgraças e coisas ruins. Coisas boas, experiências fantásticas também fazem parte do aparato.

Porém, é mais comum do que se imagina, desanimar ao longo da travessia, a perda de fôlego, uma angústia que parece consumir por dentro. São tantas as pessoas que se sentiram assim, se sentem assim, e ainda hão de experienciar isso.

Na mitologia grega ouvimos falar dos heróis, aqueles seres humanos que foram capazes de realizar grandes feitos, atos verdadeiramente virtuosos.

Dessa ideia deduzo que todos os seres humanos são verdadeiros heróis, não nos grandes feitos para outros contemplarem, mas heróis do dia a dia, com suas batalhas e lutas diárias.

A vida é uma caixinha de surpresas, boas e ruins. As boas podem ser celebradas; as ruins devem ser superadas. E aí é que aparecem os heróis de dentro de nós! Superam as adversidades, driblam os obstáculos, superam decepções, extrapolam expectativas, lidam com a desilusão e percalços, etc.

Como disse acima, por vezes nos vemos perdidos ou presos em uma situação que nos consome e destrói por dentro (e por fora). Mas a vida nos aponta pra frente, não podemos ficar estagnados ali, olhando pra um lado e pro outro sem ter qualquer tipo de reação. A vida quer nos dizer que devemos prosseguir, extrair o melhor de nós e ir além daquela situação;

Os heróis devem resplandecer em nossa face!!!

O aqui e agora é um momento precioso. Mas é só um momento. Seja um presente bom ou ruim, ele só será um presente vivenciado por você, se você, de fato, viver.

Não se perca nas estradas da vida… Não se perca nas estradas do seu interior!

Viva o presente – Aponte para o futuro.

Pílula 07: Uma questão de comunicação

O emissor, a mensagem, a linguagem e o receptor são os elementos de uma comunicação. Quanto melhor for desempenho de cada personagem nesse processo, melhor será o entendimento da comunicação, mais clara ela será.

O emissor pode transmitir uma mensagem de diversas formas: oral, escrito, imagens, gestos, sons, etc… Porém,

é imprescindível que a mensagem seja clara e objetiva, minimizando possíveis interpretações – a comunicação deve ser eficaz.

Ocorre que o emissor é responsável pela sua mensagem, mas nem sempre o receptor a interpreta com a ideia de quem transmitiu.

Falamos, escrevemos, gesticulamos, enfim… Estamos nos comunicando constantemente com as pessoas que fazem parte do nosso mundo. Mas uma palavra, por exemplo, pode ter diversos significados, dependendo da pessoa que escuta, pois cada pessoa carrega em si, uma mundo diferente do outro, cheio de significados.

As palavras, os gestos, as imagens não são simplesmente o que parecem ser. E numa vida tão tumultuada, conectada, agitada, por vezes nos desligamos daquilo que podemos transmitir ao outro, pois imputamos a nossa métrica aos outros, ou seja, os outros devem ter os mesmos parâmetros que nós, quando, na verdade, cada um tem a sua métrica, o seu modo de ver. Por vezes, as métricas se ajustam, por vezes, não.

Por outro lado, imagine um mundo cheio de iguais, onde a única possibilidade seria sempre mais do mesmo… Daquilo que já existe e acontece, sem qualquer novidade ou alguém que esteja lá para dar uma opinião diferente. Seria possível haver uma sociedade de humanos assim?

A diversidade de subjetividades é um imenso patrimônio na humanidade.

Num tempo que a comunicação parece ter sobressaltado patamares na escala de valores da humanidade, a interpretação subjetiva ganha ares de imperador e se impõe. Daí a importância do respeito e de uma comunicação cada vez mais eficaz.

O que você acha disso?

Um novo ainda mais novo

Você já ouviu falar em kintsugi?

Se trata de uma técnica centenária japonesa de reparar peças cerâmicas quebradas. A técnica consiste em utilizar laca com pó de ouro a fim de juntar novamente os cacos da peça danificada. Ocorre que , inevitavelmente, a peça reparada acaba levando em sua estrutura as cicatrizes do reparo. A peça não é uma peça nova, mas desgastada com o tempo, e por conta dos traumas sofridos, exige as marcas de uma nova estética e não os esconde. Muitas dessas peças se tornam mais valorizadas que antes de terem passado por essa técnica.

https://br.pinterest.com/pin/446700856770067375/

É possível vislumbrar, facilmente, a filosofia do kintsugi em nossa vida. Ao longo do tempo conhecemos fracassos, perdas, frustrações, desenganos, decepções, e assim por diante. A exemplo da peça cerâmica, ficamos ‘em cacos’ por dentro. Há tantos fragmentos de nós mesmos em nosso interior que mal conseguimos nos sentir… Tantas dores.

Infelizmente, muitos preferem maquiar suas dores e as escondem, tentando manter a aparência perfeita, uma aparência inabalável, que não fora atingida, que não aconteceu nada, que está bem. Tristemente, somos pressionados pela sociedade a mostrarmos uma vida plena, feliz e perfeita – o sentido da vida consiste no sucesso, na perfeição, na glória, no consumismo, etc.

Lamento dizer, somos vulneráveis. Sofremos… sofremos e sofremos sim. Há sofrimentos físicos, sofrimentos psíquicos, sofrimentos emocionais… Esconder ou mascarar isso é sua própria desilusão. Alguns filósofos afirmam que somos aquilo que é nossa memória. Uma pessoa que perde sua memória não sabe mais quem é. Assumir as dores do interior é o primeiro passo da técnica kintsugi aplicada à nossa vida. Aliada à memória podemos contar com a imaginação, a senhora criatividade – ela nos concede uma infinidade de possibilidades para a nossa realidade, principalmente mediante as adversidades.

Na técnica kintsugi o tempo de secagem é um fator determinante. A resina de laca com pó de ouro pode levar semanas (até meses) para endurecer, garantindo a coesão e durabilidade. Assim, o processo de maturação em nós demanda tempo… tempo esse que exige paciência – infelizmente, vivemos tão afobados, sem tempo para respirar direito – vivemos sem paciência.

Precisamos lembrar que, por maiores que sejam as fraturas em nossa alma, é possível sim, restabelecê-la – e para um estado melhor que o anterior, exibindo as cicatrizes de ouro carregadas em nossa história. Não há uma dor, por maior que seja, que tenha o poder de destruir uma alma humana – é possível a restauração.

Você é incrível: acredite nisso!!!

Momento de Crise

A palavra da vez parece ser CRISE. Ouvimos tanto falar em crise: crise na saúde por conta de pandemias, crise econômica, crise política, crise familiar, etc.

Mas vamos lá… e vamos com calma.

A palavra crise, com origem no grego krisis, tem o sentido de crítica, de critério. Critério é uma escolha que se faz, baseada em um valor, que leva alguém a separar algo de outro. Dessa forma, ter uma vida crítica é ter uma vida consciente, não uma vida que se vive sem critérios. Porém, não esqueçamos, que por trás dos critérios estão as crises.

Os gregos da Antiguidade ousavam explicar o mundo por meio de uma série de mitos, que, de certa forma, influenciaram por séculos, o imaginário e a mentalidade do mundo ocidental que viria na posteridade. Vemos em um desses mitos, durante a guerra de Troia, Agamenom escraviza a filha do sacerdote de Apolo da cidade de Crisa. Como ele se recusou a libertar a moça em troca de um pagamento de resgate, Apolo envia uma maldição sobre o seu exército, e o mesmo se vê obrigado a devolver a filha do sacerdote intacta. O ato de escravizar a filha do sacerdote como espólio de guerra não era condenável, mas sim o fato de recusar-se a libertar a moça. O nome do sacerdote era Crises e o de sua filha Criseida, ambos da cidade de Crisa.

Quando nos apegamos a uma situação de crise, acabamos não tendo o discernimento para tomarmos as melhores escolhas, ou mais prudentes. Ao separar (de modo justo, inteligível e prudente) as situações que se instalaram mediante a crise, podemos sair dela de modo ainda melhor que o estado anterior.

Uma crise serve para ponderarmos as coisas, avaliarmos as situações, e com discernimento, separar e obter as escolhas mais apropriadas (ou melhores).

Aproveite esse momento, então, para avaliar cada situação de sua vida. Há uma crise instalada em âmbito geral. Faça um discernimento para bem aproveitar esse momento de crise da melhor forma possível. E isso em diversas áreas da sua vida.

Aproveito para deixar um esquema para ajudar nesse discernimento. Veja cada uma das áreas e dê uma nota. Seja honesto consigo mesmo.

Lembre-se que uma crise é um tempo oportuno (kairós em grego) para uma mudança qualitativa e não quantitativa.

Isso me faz lembrar do mito da Fênix…