E então projetamos…

Já olhou para outra pessoa e sentiu tanta admiração ou tanta repulsa?

Já se deparou com alguém que te afetou de alguma forma? (positiva ou negativamente)

Pois é… Estou me referindo a algo muito significativo que acontece e muito: a projeção. Esse mecanismo de defesa psicológica se trata do movimento de lançar para fora de si, sobre outra pessoa, seus próprios sentimentos, atributos e emoções.

Projetamos tantas coisas nos outros, principalmente nos mais próximos: nossos defeitos, nossas qualidades, nossos sonhos, esperanças, expectativas, nossos medos, e por aí vai…

Será mesmo que olhamos para o outro de forma singular, ou enxergamos uma caricatura daquilo que queremos?

Fazemos das nossas expectativas as expectativas dos outros… e só nos frustrados com isso.

Vale a reflexão.

Sobre autoengano

Infelizmente, a mentira mais danosa é aquela que contamos para nós mesmos.

Habitualmente, confunde-se bem-estar/ser e bem-ter. O bem-estar/ser (digamos assim) é o ato de estar bem consigo mesmo, nos conduz à uma saúde física e uma maturidade seja psicológica, emocional e espiritual. Já o bem-ter é uma tratativa paliativa que a sociedade oferece como uma forma de taparmos, momentaneamente, nossas feridas existenciais.

Somos que forçados a crer que a felicidade se trata de uma meta a ser alcançada como um um bem externo, quando, na verdade, precisamos atingi-la a partir de dentro.

Pessoas trabalhando naquilo que não gostam e/ou não se identificam, para comprarem aquilo que não precisam, a fim de viverem um determinado status social digno de ser notado.

Aparentemente, esse discurso soa um tanto revolucionário, por dizermos assim. Anarquista, comunista, ou qualquer outro ‘ista’ que se queira denominar. Mas não! Aqui se trata de um modo de vida baseado em um certo consumo desenfreado no qual se ancora a razão ser/existir, na qual se consiste o sentido da vida. Por mais que usemos discursos que tentem, a todo custo, justificar uma atitude assim, aquele discurso de que se quer o melhor para os filhos, que a aposentadoria logo chegará, que dinheiro é para se gastar, ou aquele sonho de vida em ter ‘zilhões de bens’, na verdade é que somos que levados por um onda que nos impulsiona ao ter.

Cá pra nós… O mais importante tem se baseado em um certa quantidade de bens que se possui, e não na qualidade de vínculos que se constroem.

O autoengano se trata da falta de honestidade para consigo mesmo e nos leva a viver uma vida de ilusão e mentiras, uma vida superficial.

Sobre autoimagem

Podemos pensar em autoimagem enquanto o modo como a pessoa se vê, ou seja, como ela se enxerga e se percebe no mundo;

Tem também a autoimagem enquanto ideal dessa pessoa, ou seja, a autoimagem que ela tem de si mesmo é, na verdade, um ideal a ser alcançado, a ser atingido; como ela gostaria de ser talvez; se trata do modo como a pessoa se imagina.

Há a autoimagem social, ou seja, o modo como a pessoa acredita que os outros a enxergam, numa angústia, muitas vezes sacrificante, de sua personalidade em detrimento ao desejo ou expectativas do outro;

Por último, a autoimagem social ideal, onde a pessoa acaba por viver (basicamente) na esteira da opinião e expectativas dos outros; se trata do modo como a pessoa gostaria de ser visto e reconhecido pelos outros.

A autoimagem está intrinsecamente relacionada com a nossa autoestima, também. A percepção que cada um tem de si mesmo vai muito além do que um simples reflexo no espelho, uma imagem em uma rede social, ou um estereótipo a ser seguido.

Terapia familiar sistêmica

Virginia Satir, uma pesquisadora estadunidense, aclamada como uma das mais importantes terapeutas familiar, desenvolveu a teoria dos 5 papéis familiares.

São eles:

1. Acusador: é aquele membro da família que fica apontando os erros, as falhas, os enganos, os problemas;

2. Apaziguador: é o indivíduo que tentar colocar “panos quentes” nas brigas e desentendimentos, sem, entretanto, tentar ou procurar resolver a situação em definitivo;

3. Computador: é a pessoa que se mostra correta e age de forma apropriada, porém demonstrando pouca ou nenhuma emoção, talvez mascarando uma sensação de vulnerabilidade. Costuma se fechar em seu mundo como um intelectual distante;

4. Distraidor: buscam recorrer, com frequência, ao artifício do humor é emoções, como uma forma de fugir de determinada situação e/ou manipulação;

5. Nivelador: é aquele que busca comunicar-se de uma forma sincera, aberta e compreensiva sobre o que está acontecendo e busca, de verdade, uma maneira de melhorar o que quer que esteja causando o problema.

Importante frisar que as pessoas podem, em situações diferentes assumirem papéis diferentes. Portanto, não compete nenhum tipo de classificação. Mas sim, um modo para nos auxiliar em nossas relações familiares.

Nosso castelo interior

Quantos não são os cômodos do castelo interior que vamos construindo?

Cômodos que vão servindo para colocar tudo aquilo que não queremos mais, mas nos recusamos a jogar fora…

Cômodos que vão abrigando aquelas tralhas e bugigangas.

Há cômodos criados para abrigar nossas emoções e afetos; outros para abrigar memórias especiais; outros, ainda, abrigam memórias e afetos não tão agradáveis assim…

Imagina a confusão que deve ir criando em nossa mente com tanta coisa acumulada e que vamos camuflando em tantos sintomas?

A infindável mente humana

Em nossa mente correm livre as maiorias conexões e sintonia possíveis, de vários mundo que se separam e confrontam entre si…

Em nossa mente é possível estar e não estar, ser e não ser, ir e não ir, e tantas possibilidades inimagináveis…

Em nossa mente se escondem os nossos demônios e nossos anjos…

Em nossa mente vivenciamos, experienciamos, viajamos, imaginamos, vamos de um lado para outro, criamos asas e voamos…

Em nossa mente há tantas memórias boas, mas também as que não são tão boas assim; saudades, lembranças, nostalgias…

Sobre idas e vindas…

E então começamos a enxergar a vida com outros olhos…

Começamos a compreender que por trás das coisas há algum sentido, seja ele percebido ou não…

Começamos a buscar respostas para perguntas adormecidas…

Chega um momento que aquilo que fazia sentido já não faz mais…

Há um momento, um fato, um sentimento, uma ideia; e basta só um para fazer com que nosso mundo de uma volta de 180°.

Vamos nos percebendo, e entendemos que quem éramos já não somos mais…

Todavia, quem somos hoje não deixa de ser o resultado da equação de todo a nossa história até aqui.

Aquele abraço!

“É preciso sair da ilha para ver a ilha”

frase icônica de José Saramago.

Para apreciar uma paisagem, seja ela qual for, é preciso estar fora dela, do contrário, você sempre irá apreciar o seu redor. Estando numa praia paradisíaca, você aproveita o momento curtindo, mas pouco é capaz de contemplar a beleza daquele lugar estando ali, será necessário afastar pela costa para apreciar aquele paraíso. Concorda?

Você já reparou que você não consegue se ver se não for por meio de um reflexo? Seja, num espelho, uma imagem refletida na água, no vidro, uma fotografia, etc… Para se ver, você precisa de um reflexo. Caso contrário, ficará fadado a contemplar seu umbigo e a ponta do nariz (risos).

Obviamente, há um processo por trás disso que estou falando. Olhar a si mesmo por meio de uma imagem é o mesmo que sair de si. Credo! Sair de si mesmo para se ver como tal.

Deixe sua imaginação fluir no que estou dizendo: é como se a sua consciência, por um momento, saísse do seu corpo. Ali, então, você conseguiria captar a imagem de si como você realmente é, você conseguiria contemplar a si mesmo, por conta que a sua imagem está fora de você mesmo – foi projetada para fora.

Claro que não estou falando de qualquer tipo de espiritismo ou realismo surreal, ou qualquer tipo de fantasia. Só um modo de exemplificar o processo.

Assim, para se ver, de alguma forma a imagem de quem você é deve ser projetada para fora de você mesmo. Assim, você consegue ver seu corpo. Mas também pode projetar seus pensamentos, seus sentimentos, suas atitudes, a ponto de se ver em outras pessoas, pelo menos aquele ‘algo’ específico. Está entendendo?

Agora vamos supor que numa relação entre pessoas (e espero que você se socialize), ambos tenham a grande dificuldade de se projetar para fora de si. Nesse caso, estariam fadados ao fracasso nessa relação (seja uma relação amorosa, pessoal, profissional, fraterna, e assim por diante). Não haveria modo de se entenderem, pois ambos só conseguem enxergar a partir de seu ponto de vista – precisam desenvolver a habilidade de sair de si mesmo e olhar como alguém de fora – como disse acima, só conseguem olhar para seu próprio umbigo.

Pois bem, quem sou, como estou, o que faço, como faço, o que penso, como penso, o que sinto, como sinto… (ufa) requer uma autoanálise de sair de si mesmo e se enxergar com os olhos de quem vê de fora. Nesse caso, o outro me vê, me percebe, me sente de uma forma diferente da minha. Será que a forma que ele sente é a forma que eu sinto? Mas por que será que ele sente dessa forma? Por que será que ele percebe dessa forma?

O outro pode ser o outro, como também pode ser eu. A partir do momento que eu saio de mim para entender o mundo como a outra pessoa entende, para sentir como a outra pessoa sente me torno o outro, visto o papel do outro em minha vida. Posso ser o outro para mim mesmo, como posso ser o outro para o outro. Enxergar o outro do ponto de vista do outro e confrontar com o meu. Eita exercício hercúleo esse.

O nome dado a esse processo de sair de si, se soltar do seu ponto de vista e ver a partir do ponto de vista do outro é a chave para a EMPATIA.

Diga-se de passagem, como há escassez de empatia hoje em dia… sobra antipatia! Parece faltar empatia para com o outro e para consigo mesmo. Infelizmente.

Pessoas fechadas em seu mundo, em seu ponto de vista, em seu modo de ser, de pensar, de agir… Tão presas em si, que são incapazes para ‘o novo’ em suas vidas. Estão acostumadas a prisão em que se colocaram que perderam a expectativa do ‘e se?’. Perderam de vista as possibilidades, tudo porque se fecharam em seus pontos de vista e excluíram a possibilidade do outro, inclusive a possibilidade delas mesmas se verem como o outro.

Pense em como a sua vida daria um verdadeiro ‘up’ com a vivência da empatia. Pensou?

Uma linguagem do inconsciente

O filme Matrix foi lançado em 1999 no meio da efervescência do bug do milênio. O filme junta filosofia com tecnologia por meio de um enredo que prende qualquer pessoa, onde um jovem programador (Thomas Anderson – Keanu Reeves) e hacker se vê preso em um mundo de ilusão que até então acreditava ser o real. Todavia, esse mundo que julgava ser o real, era apenas uma imagem produzida em seu cérebro por inteligências artificias superdesenvolvidas que escravizam os humanos, alimentando-se da energia de seus corpos, mas mantendo-os em um estado de consciência induzida e programa. Há várias cenas a serem consideradas como relevantes. Contudo, para o objetivo deste texto, vamos no focar no diálogo entre Neo (Keanu Reeves) e Morpheus (Líder da resistência humana interpretado por Laurence Fishburne), no qual é proposta a escolha entre a pílula azul ou a vermelha.

“Esta é a sua última chance. Depois disso, não há como voltar atrás. Você toma a pílula azul – A história acaba, e você acorda em seu quarto e acredita no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha vai permanecer no País das Maravilhas e eu te mostrarei o quão profundo é o buraco do coelho”

A alusão ao mundo de Alice faz total sentido ao que se realizará em Neo. Um mundo, até então desconhecido por ele, mas que se trata do mundo como é, ou seja, experimentar a pílula vermelha, seria ‘cair no buraco do coelho’ e encontrar a verdade sobre si.

A partir deste ponto, a referência a Sigmund Freud é quase inevitável. Ele mesmo se intitula como a terceira ferida narcísica da humanidade, sendo a primeiro o golpe dado por Copérnico ao demonstrar que o homem não é centro do universo; o segundo golpe dado por Darwin ao teorizar sobre o evolucionismo das espécies na natureza, inclusive a espécie humana; e – finalmente – o terceiro golpe dado por Freud ao demonstrar de modo lúcido e eloquente o inconsciente. Assim, o homem não é o centro do universo, não é a criação mor da natureza, nem é dono de si mesmo, vendido ao seu inconsciente.

A sensação de não saber se está acordado ou dormindo é a relação que procuramos entre Matrix, Alice e Freud. Tanto em Matrix quanto em Alice nos deparamos com mundo, outra realidade outrora desconhecidas ou inacessíveis. O mesmo se dá com Freud, visto que há uma instância inacessível ao homem consciente e crente de si mesmo, a saber, o inconsciente.

Ainda nos resta outro personagem para compor nossa mesa, o filósofo Wittgenstein que muito nos acrescentará a essa nossa conversa. Ele preocupou-se com as formas e o funcionamento da linguagem, ou seja, o centro de sua obra é a lógica entendida como área do conhecimento que se ocupa com a linguagem simbólico-científica. Os jogos de linguagem ilustrados por Wittgenstein consistiam em utilizar a linguagem para representar o objeto determinando a partir dela a concepção da realidade. Em outras palavras, a realidade só faz sentido se essa perpassa pela linguagem, ou seja, a linguagem é quem fornece todo o sentido para a realidade se fazer enquanto tal. Porém, mencionamos aqui que há vários discursos, várias linguagens, várias comunicações distintas umas das outras, cada uma com sua gramática específica. Não se trata de um idioma, mas sim de toda forma de comunicação e discurso.

Assim posto, temos a configuração da Matrix e Alice como expoentes do diálogo emblemático entre Freud e Wittgenstein (os dois foram contemporâneos, diga-se de passagem), cada qual expondo o seu pensamento.

Mas qual relação podemos fazer entre tudo isso? É possível obtermos um diálogo que gere algum consenso entre um filósofo antimetafísico e o pai da psicanálise que funda seus conceitos, principalmente, abarcando-os no campo da metafísica?

Wittgenstein considera que a linguagem é o limite do pensamento e o limite do pensamento são os fatos. Assim, pensar em uma Matrix chega a ser um absurdo. Todavia, mesmo que seja um absurdo, essa mesma Matrix deverá ser comunicável, ou seja, deve estar embasada sobre o fundamento da lógica, a ponto de ser cognoscível. A linguagem se refere aos fatos e só sobre eles, não às coisas. Dizer que o garoto está sentado é um fato, mas só o garoto não é um fato, é uma coisa. A linguagem pode falar sobre o mundo retratando-o de um modo que concorde com a realidade, excluindo todo e qualquer subjetivismo ou doutrina. Aquilo que colocamos em relevo é a linguagem como uma imagem-espelho do mundo.

Supomos, então, tratarmos em termos de equivalência, a Matrix como o mundo em que vivemos, mas não que haja uma outra realidade extrínseca a cada um de nós, mas sim, um plano paralelo intrínseco, o qual chamaremos de ‘inconsciente’. Seria, então, o inconsciente, o ‘senhor de nós mesmos’, e não o consciente. Tomar a pílula vermelha, nesse caso, seria aventurar-se no ‘mundo das maravilhas do inconsciente’. Portanto, requer sair de seu estado atual, independente de qual seja o nome dado, e adentrar-se em si mesmo.

Ocorre que o inconsciente é inacessível. Será mesmo? Ao longo de seus estudos, Freud abandonou a hipnose e adotou o método da associação livre. Por meio desse método, Freud conseguira alcançar recônditos do inconsciente que outrora estavam ocultos ao sujeito. Nesse caso, a linguagem da pessoa fora fundamental para a investigação do ‘fato’. Contudo, não é esse o ponto principal que adotamos nesse paralelo entre nossos autores. Para Freud, por exemplo, um sonho é a manifestação do inconsciente, projetando imagens (muitas das vezes sem sentido algum), oriundas de cargas emocionais que foram, de alguma forma, armazenadas nele (o inconsciente). Portanto, podemos afirmar que um sonho é uma das maneiras que o inconsciente encontra de driblar os mecanismos de defesa e expressar-se – ou seja, a sua linguagem. Da mesma forma que a linguagem não se importa com o objeto, mas o fato, o inconsciente não faz referência ao objeto, mas à relação – ele é ligado no modo simétrico e não assimétrico. Chegamos, assim, no ponto chave – o sonho como uma linguagem do inconsciente.  

A imagem apresentada neste texto sugere que, analogamente falando, o inconsciente seria a nossa real versão, que comunica-se, dentre outras formas, por meio do sonho com seus conteúdos manifestos e latentes. Contudo, a linguagem é sobre ‘fatos e não coisas’. Assim, essa linguagem onírica deve ser decifrada. A decifração dessa linguagem revela um fragmento ou vários fragmentos específicos do inconsciente. Se para Wittgenstein, a linguagem é o que dá sentido aos fatos e que os fatos dão sentido à linguagem, nessa ida e vinda entre Matrix e o Mundo das maravilhas, nos deparamos com a figura do inconsciente sendo o senhor de nós mesmos, e que sequer tomamos conhecimento disso.

A saída da Matrix, ou seja, de uma realidade que somos automatizados, e ir em direção ao mundo das Maravilhas, é análoga à passagem do consciente para o inconsciente. Porém, essa passagem só é possível por meio da linguagem que dá o sentido para tal e que, também, ganha sentido em si.

Anormal?

A psicologia clínica é um dos campos de atuação da psicologia voltada para o estudo da mente, principalmente sua saúde. Há a especificidade de aperfeiçoar aspetos interpessoais e intrapessoais, além dos aspectos da própria história de vida do paciente. Dentre as abordagens psicológicas podem-se citar as abordagens comportamental, a psicanálise, a gestalt, dentre outras, estando as técnicas e os métodos vinculados a essas abordagens. Ela, a psicologia clínica, analisa as origens, as manifestações e os tratamentos para os distúrbios mentais envolvendo hábitos, pensamentos ou motivações. Esses distúrbios podem ser causados por fatores genéticos, ambientais, cognitivos ou neurológicos. As atribuições do psicólogo clínico não se limitam à uma perspectiva curativa (aspectos psicopatológicos) mas também à prevenção, redução das situações de risco e à melhoria da qualidade de vida. Infelizmente, ainda hoje há um certo preconceito ou um paradigma de que alguém que vai ao psicólogo ou psiquiatra pedir ajuda ser taxado como louco ou ‘anormal’.

Afinal de contas, como definir ‘anormal’? Embora seja muito fácil identificar pessoas aflitas ou com comportamento bizarro, a definição de normalidade e anormalidade não é algo tão simples assim.

Em sua ‘história da loucura’ (1961), Foucault mostra que a loucura não se trata de um dado biológico, da natureza, mas sim cultural, ou seja, cada época define seus limites para a normalidade e a anormalidade e se relaciona com a ‘loucura’ de acordo com o pensamento vigorante.

Assim, a normalidade está vinculada ao contexto histórico e social em que se vive. É só a partir do séc. XVII, a loucura é considerada como uma atitude daquele que está errado, uma vez que a razão é aquela que encaminha a humanidade para aquilo que é o certo e o correto. Inclusive, é nesse período que pessoas consideradas loucas (ou anormais) começaram a serem internadas em manicômios. No séc. XIX a visão do louco muda. Agora o louco não é mais um criminoso ou aquele que está errado, mas um doente. A classe médica ganha status de definir o que é normal e definir os padrões de tratamento para aqueles que fogem da normalidade. O que Foucault quer ressaltar é que cada época tem sua visão de normalidade e de que a ação frente à essa normalidade não depende unicamente do conhecimento que se detém, mas também do contexto histórico, cultural e social em que se está inserido.

Atitudes consideradas normais hoje em dia, outrora eram anormais; atitudes consideradas normais no passado, hoje são anormais.

Todavia, o problema de definir normalidade ainda persiste. Uma pessoa saudável, vivendo em uma sociedade doentia, seria considerada anormal? Pessoas que se recusam a aceitar regras tacanhas de crenças e comportamentos também seriam rotuladas de anormais, por não seguirem critérios normativos? Além disso, há de se apontar a diferença entre ator e observador (aquele que age / aquele que percebe), o que neste caso implicaria em uma percepção totalmente subjetiva da normalidade.

A propósito, o termo anormal remete a algo que foge da norma, da regra, do comum, do habitual. Sendo assim, pode-se dizer que pessoas extremamente altas ou baixas, extremamente inteligentes, talentosas ou atrasadas, por exemplo, são pessoas anormais.

Atualmente, as definições psicológicas para anormalidade se concentram em quatro critérios aceitos: angústia, desvio, disfunção e perigo. A anormalidade envolve dor e sofrimento, podendo ser agudo e crônico. Critérios como a má adaptação à vida cotidiana, a irracionalidade, imprevisibilidade, volatilidade, comportamentos anticonvencionais e constrangimentos são, também, considerados para delimitar o anormal do normal.

Adentrando o campo da psicanálise, a neurose é uma das três possibilidades de constituição do sujeito. Todo sujeito se constitui ao nascer à medida que faz experiências afetivas, emocionais, sociais, etc. Ao longo dessas relações vai-se construindo o ser de cada um, sua personalidade, o modo de estar com o outro: ou ele será um neurótico; ou será um perverso; ou será um psicótico. Para Freud, uma vez que toda a estrutura da personalidade se forma, a partir da sua relação dentro do Complexo de Édipo, o sujeito se ‘alinha’ em determinada estrutura e permanece assim, imutável (Winnicott, por outro lado, considera o trânsito entre as estruturas ao longo das experiências de vida).

A neurose se dá partir de um conflito, da divisão subjetiva, que fora recalcado no inconsciente. Como o objeto recalcado encontra-se no inconsciente, o sujeito não tem conhecimento de tal objetado, então ocorre uma simbolização de tal objeto ora recalcado. Dessa forma, a pessoa dentro dessa estrutura neurótica cria relações simbólicas com determinados objetos em vista de uma satisfação daquilo que fora recalcado – e como ocorre no inconsciente, a pessoa não toma conhecimento (ou posse) daquilo que a motiva a agir, pensar, sentir de determinada forma. A neurose pode ser dividida em subgrupos, a saber: histeria, neurose obsessiva e fobias.

Diferentemente do ocorre na neurose, na psicose há a falta do recalque, não se trata de algo que fora recalcado no inconsciente, mas uma falha na inscrição de algo que deveria ser inscrito e não fora. Na neurose ocorre o enfraquecimento de uma representação intolerável em tolerável, já na psicose o que ocorre é a separação radical e definitiva entre a representação intolerável e o eu, ocasionado a ‘expulsão’ dessa representação e com ela o fragmento afetivo de todo o indesejável, mergulhando o ‘eu’ em uma confusão alucinatória. Em outras palavras, como a representação não se instalou no simbólico, não há o retorno no simbólico, mas no real. Ficam evidentes assim, os sintomas na psicose como alucinações, delírios, intrusões e ecos de pensamentos, etc. A psicose pode ser dividida em subgrupos, a saber: esquizofrenia, paranoia e mania.

No caso da perversão, a forma de relacionar que ocorre na estrutura psíquica é da negação da representação, nesse caso, do princípio da castração. O retorno dessa representação que fora negada se dá por meio de um significante, neste caso, por exemplo, o fetiche. Por meio do fetiche, o perverso consegue administrar sua negação da castração afirmando-se como o legislador da lei, como o manipulador do outro, uma vez que o outro servirá ao meu bel prazer. A perversão pode se manifestar, além do fetiche, também nas práticas de sadismo e masoquismo e entrelaçam-se entre si, uma vez que estão muito próximas umas das outras.

Com isso exposto, tanto

a neurose, quanto a psicose e a perversão compõem a forma do sujeito se posicionar no mundo, fazem parte da leitura que se faz do outro.

Essas estruturas formam o quadro da normalidade, diferentemente do que se transmite pelo senso comum, ao afirmar que o neurótico, o psicótico ou o perverso são loucos, ou dito ‘anormais’. Para a psicanálise freudiana, a linha tênue entre normalidade e anormalidade seria identificada na intensidade na medida com que a pessoa vivencia os sintomas de sua determinada estrutura psíquica. Ou seja, quanto maior o grau do sintoma, maior o sofrimento. E é a partir desse sofrimento que se caracteriza a ‘anormalidade’ ou ‘desajuste’. Freud vai buscar nos meandros do inconsciente a compreensão e a cura (ou alívio) de determinado sintoma.

Concluindo, definir normal e anormal é uma habilidade de visão holística que vai além e ultrapassa qualquer ponto de vista unívoco, ultrapassa qualquer preconceito ou discurso unilateral.